Por Karin Strohecker
LONDRES (Reuters) – Um quarto de século desde que percebeu a influência crescente dos países de mercados emergentes, o economista que cunhou a sigla BRIC disse que esses países poderiam eventualmente construir alternativas ao dólar, uma ideia que parecia uma “fantasia” até muito recentemente.
Jim O’Neill disse à Reuters que os recentes avanços nas tecnologias de pagamento mudaram a sua visão sobre as perspectivas de acordos financeiros alternativos entre os países do BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
“Há cerca de 18 meses, se me tivessem interrogado sobre tudo isto, eu teria dito que é uma fantasia, a ideia de que os países BRICS podem criar algum tipo de veículo financeiro alternativo”, disse ele numa entrevista.
Essa crença deveu-se em parte ao facto de grande parte do pensamento sobre o sistema monetário global ter sido moldado por décadas de domínio do dólar após o colapso, na década de 1970, do sistema estabelecido pelo “Acordo de Bretton Woods”, disse ele.
“Quem sabe como será o sistema monetário no futuro?”
A desdolarização – esforços dos países para reduzir a dependência do dólar no comércio, no investimento e nas reservas do banco central – tornou-se um objectivo crescente para muitas economias emergentes nos últimos anos, embora o dólar continue a ser, de longe, a reserva dominante e a moeda comercial do mundo.
SÍMBOLO PODEROSO, REALIZAÇÕES LIMITADAS
O’Neill, antigo economista da Goldman Sachs, disse que os membros do BRICS têm lutado para transformar a sua visão colectiva em política. Interesses geopolíticos e económicos divergentes complicaram os esforços para transformar o sistema económico global a seu favor.
“O simbolismo é realmente poderoso”, disse O’Neill. “Mas em termos de alcançar coisas específicas, com a honrosa exceção da criação do Novo Banco de Desenvolvimento, estou lutando para pensar em outra coisa”.
O grupo BRICS tem discutido alternativas aos sistemas de pagamento baseados em dólares, desde a iniciativa da plataforma BRICS Pay até à ligação de sistemas nacionais já existentes, como o UPI da Índia, o CIPS da China e o PIX do Brasil, ou analisando o potencial uso futuro das Moedas Digitais do Banco Central.
Os quatro países BRIC originais realizaram a sua primeira cimeira em 2009 e convidaram a África do Sul a aderir um ano depois. Posteriormente, evoluiu para o BRICS+, uma plataforma mais ampla para defender os interesses do Sul Global, com o Egito, a Etiópia, a Indonésia, o Irão e os Emirados Árabes Unidos entre os que completaram o grupo.
O’Neill e Gemma Chenger Deng co-fundaram o BRICS+ Thinking, uma plataforma política sem fins lucrativos que encomendará pesquisas destinadas a promover a colaboração entre os países ocidentais e as nações do BRICS+. A plataforma também planeja desenvolver seus próprios índices e publicar previsões de crescimento para as economias BRICS+.